domingo, 4 de dezembro de 2016

Felicidades...

Ele tinha vivido, até então, uma existência fútil, uma vida mesquinha, sem sal, sem autenticidade, pensara em suicídio, pensara em homicídio, pensara nas drogas, no sexo, no estupro, em tudo de ruim que se possa conceber. Não achando resultados viáveis, se satisfez em ter uma existência mediana, atrás de pequenos objetivos, atrás de fugas rápidas e malogradas.
   De súbito levantou-se. Precisava sair dali, sua consciência dizia, que precisava sair dali. Colocou seu casaco, colocou os sapatos pretos, apertou os cadarços e saiu. O tempo estava frio e seco, seu nariz sangrava com o ar seco que entrava em seus pulmões, mas com um lenço limpou o sangue quente e escarlate que escorria por sua face. Não tinha destino definido, apenas saiu atrás das chamadas coisas inesperadas, mas sua única esperança mesmo era aliviar a tensão e depois retornar para sua casa.
   Aleksander caminhava pela calçada, por uma rua cheia de pequenas lojinhas de artigos importados, algumas lanchonetes e uma loja de sapato, que estavam em promoção. Observava as pessoas, as observava em suas rotinas e imaginava o quanto elas eram melhores que ele. Viu uma mulher com seus 32 anos e um filho pequeno, que deveria ter 6 ou 7 anos. Um cachorro preso na coleira, a criança feliz com um boneco na mão, a mãe curvando-se beijando o filho, aquela sensação de mês natalino, onde parece que as pessoas se amam mais, o joga numa solidão indescritível. Poderiam ser sua mulher e seu filho... mas nunca dera muita importância pra isso, sentia-se muito autossuficiente pra procurar aquilo. Balançou a cabeça e continuou sua peregrinação no mundo aparentemente mais feliz e colorido do que aquele onde tinha crescido e que havia dentro de si mesmo.
  Continuou caminhando, mais pessoas felizes, aquilo o estava perturbando, como nada antes. Não entendia o porquê, mas sentia uma vontade insana de correr. Viu-se em esquinas, pessoas em pé riam dele, ele não conseguia entender o porquê...Seu coração estava acelerado, suas mãos suavam como nunca antes. Sentia a angustia latente em seu ser. Um ódio dos outros começou a crescer. Sentia raiva dos outros, por causa da existência mesquinha que levava, por causa das mentiras que haviam lhe contado, por causa da falta de solidariedade para com ele. Ele que era tão talentoso, tão especial, tão bom naquilo que fazia: dar sua presença à todos os que o cercam. Ódio, sim, ódio...lembrou-se das recusas amorosas na adolescência, que o definiram como alguém que não se relacionava com ninguém, e usava de desculpas, que estudava muito, para abater aquele sentimento.
  Corria e corria, até que de repente viu novamente a mulher e o menino, felizes, sorridentes, tendo uma existência melhor que a sua, e isso lhe dava ódio. De repente, meteu a mão no bolso, no instante em que parara sua corrida, ouvia vozes, sorrisos, frases de ódio e zombaria, viu as luzes na rua se reduzirem, apesar de não ser mais de 9 da manhã. Aleksander tirou a mão do bolso, viu que tinha uma arma em sua mão, sabia que estava carregada, sentia que estava, sentia o frio do metal, sentia o cano da pistola em sua mão. Viu a criança sorrindo, feliz...viu em um instante, um instante de suas loucuras, viu mais que uma criança, viu o símbolo de sua infância sonhadora, que no fim se revelara em uma fase adulta de tristezas e sofrimentos, com ódio então apontou a arma, ouvia gritos de incentivos....Ouviu-se um estrondo, o grito da mãe, o uivo do cachorro. Viu o olhar de ódio das pessoas...desesperado, apontou o cano da arma para seu queixo e quando apertou o gatilho... acordou...suado, vendo em seus resquícios de produto do inconsciente o sangue da criança escorrendo pela calçada, o boneco abandonado ao chão e as músicas natalinas que desejavam felicidades.


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