Bom, dando uma pausa no tema proposto inicialmente, resolvi trazer um conto, espero que gostem :)
O relógio batia 8 horas. Aleksander, ao se
levantar, sentia uma dor indescritível em sua cabeça. Uma sensação que um
machado havia sido enfiado, em algum momento na madrugada, em seu crânio.
Arrastou-se lentamente até a cozinha e apanhou um copo d’agua. Uma sede voraz.
Garganta seca e saliva pastosa e grudenta. Aqueles sintomas de ressaca,
realmente o incomodavam, mas não se lembrava de ter ingerido nenhuma bebida
alcóolica...
Lembrou-se então que estava de
folga. Realmente a vida de escritório o incomodava, mas as contas...sim as
contas. Então recordou que o único motivo que o ainda matinha no emprego era a
necessidade de comprar seus livros e de algumas poucas vezes sentir-se um
burguês, dando-se ao luxo em divertimentos caros e atividades sociais, mas...como
odiava isso também. Tirando os livros, sentia que todo seu dinheiro era
investido em inutilidades, mas ahh...viciantes inutilidades, não sabia viver
sem elas. De bom, restavam apenas os livros, que eram seu único consolo. Este
era Aleksander, um proleta, formado em Direito, que trabalha em um escritório
de advocacia, odeia o escritório, até gosta da profissão, mas consumido pelo
tédio, tudo se obscurece. E quando digo tudo, é tudo mesmo.
Saindo da cozinha, ele se dirige
até o banheiro, passando pelo corredor vazio de sua casa, onde fixado na
parede, um relógio solitário marca as horas. Aleksander mora só. Pais? Já se
foram há alguns anos, primeiro sua mãe, levada por uma doença degenerativa,
depois seu pai, que sucumbiu a depressão após a morte de sua companheira, se
afogando no álcool e perdendo a vontade de viver. Mulher? Em sua sede de
crescimento social, abdicou totalmente à qualquer tipo de envolvimento amoroso.
Agora vive, quando não se dá bem com as oferecidas que encontra ,nas já
mencionadas, atividades sociais (se é que gastar dinheiro no bar
ritualisticamente às sextas e sábados pode ser chamado de atividades sociais),
consolando-se com alguma prostituta, afogando-se assim no desejo desenfreado,
que depois só lhe rende gastos e arrependimentos, mas estes não são tão
prejudiciais à sua consciência e à seu bolso, para que o impeçam de toda semana
ir sempre ao mesmo destino. Este é o solitário Aleksander, que vive sem afetos
e sem amores reais.
Continua caminhando, lentamente,
olhando para os pés, sem pressa. Pressa pra quê? Entra no Toillet, encurva-se,
faz uma concha com as mãos e lança água em seu rosto, para despertar e tentar
remediar a enxaqueca. Endireita-se, contempla sua face, observa as curvas de
seu rosto bem delineado, e reflete o quanto é bem afeiçoado, mas se souberem o
que se esconde por trás daquele rosto, os pensamentos e desejos...o julgariam,
o condenariam, o queimariam e cantariam em volta de sua fogueira. Fixo em seu
reflexo, lembra-se que não tem sentido em sua vida. Recorda também suas
tentativas de engajamento. Já tentara ser marxista. Comprou os livros, leu o
Capital, o Manifesto do Partido Comunista, algumas obras de Gramsci, participou
das reuniões, mas...era egocêntrico demais para tentar lutar por uma causa
coletiva. Tentou esquecer dos erros lógicos das doutrinas esquerdistas, mas não
dava, se sentia inteligente demais pra isso. Lembrou-se também da tentativa na
religião. Procurou a velha Biblia que ganhara de sua mãe quando era um
adolescente, leu-a sinceramente, começou a frequentar uma igreja, fez
evangelismos, caridades, visitas, mas...era libertino demais para abrir mão de
seus prazeres carnais, e quando caia nestes, sentia-se um lixo, então abdicara
ao cristianismo também. Abraçara então a falta de sentido na existência,
convencendo-se que o nada deveria ser sua filosofia. Este era o niilista e o
sem sentido Aleksander, que não tem resolução alguma em suas múltiplas
tentativas de se convencer que era importante e de encontrar algo pelo que
morrer.
Contemplando então sua imagem,
por um momento, um instante incalculável, contemplou um ser estranho, um
reflexo que ao mesmo tempo não era, mas era ele mesmo. Não viu a beleza, não
viu a persona, mas viu seu ego, refletido fatidicamente. Sentiu um calafrio, um
horror indescritível e num momento repentino, socou seu espelho. Sentia então
prazer da sensação falsa de destruição da imagem, sentia o calor do sangue em
suas mãos, sentia a veia em seu pescoço latejando, olhou para os cacos na pia e
só viu o aflito Aleksander, que naquele momento pensara em suicídio, mas a
dúvida e o medo do que viria depois lhe davam uma ponta de receio, não que
acreditasse em Deus ou no diabo, mas na dúvida, sabendo de seus crimes e
pecados, era melhor ficar assim. Saiu então para fazer um curativo e tomar um
remédio para ver se aquela dor de cabeça passava.
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