Ele tinha vivido, até então, uma existência fútil, uma vida
mesquinha, sem sal, sem autenticidade, pensara em suicídio, pensara em
homicídio, pensara nas drogas, no sexo, no estupro, em tudo de ruim que se
possa conceber. Não achando resultados viáveis, se satisfez em ter uma
existência mediana, atrás de pequenos objetivos, atrás de fugas rápidas e malogradas.
De súbito
levantou-se. Precisava sair dali, sua consciência dizia, que precisava sair
dali. Colocou seu casaco, colocou os sapatos pretos, apertou os cadarços e
saiu. O tempo estava frio e seco, seu nariz sangrava com o ar seco que entrava
em seus pulmões, mas com um lenço limpou o sangue quente e escarlate que
escorria por sua face. Não tinha destino definido, apenas saiu atrás das
chamadas coisas inesperadas, mas sua única esperança mesmo era aliviar a tensão
e depois retornar para sua casa.
Aleksander
caminhava pela calçada, por uma rua cheia de pequenas lojinhas de artigos
importados, algumas lanchonetes e uma loja de sapato, que estavam em promoção.
Observava as pessoas, as observava em suas rotinas e imaginava o quanto elas
eram melhores que ele. Viu uma mulher com seus 32 anos e um filho pequeno, que
deveria ter 6 ou 7 anos. Um cachorro preso na coleira, a criança feliz com um
boneco na mão, a mãe curvando-se beijando o filho, aquela sensação de mês
natalino, onde parece que as pessoas se amam mais, o joga numa solidão
indescritível. Poderiam ser sua mulher e seu filho... mas nunca dera muita
importância pra isso, sentia-se muito autossuficiente pra procurar aquilo.
Balançou a cabeça e continuou sua peregrinação no mundo aparentemente mais
feliz e colorido do que aquele onde tinha crescido e que havia dentro de si
mesmo.
Continuou
caminhando, mais pessoas felizes, aquilo o estava perturbando, como nada antes.
Não entendia o porquê, mas sentia uma vontade insana de correr. Viu-se em
esquinas, pessoas em pé riam dele, ele não conseguia entender o porquê...Seu
coração estava acelerado, suas mãos suavam como nunca antes. Sentia a angustia
latente em seu ser. Um ódio dos outros começou a crescer. Sentia raiva dos
outros, por causa da existência mesquinha que levava, por causa das mentiras
que haviam lhe contado, por causa da falta de solidariedade para com ele. Ele que
era tão talentoso, tão especial, tão bom naquilo que fazia: dar sua presença à
todos os que o cercam. Ódio, sim, ódio...lembrou-se das recusas amorosas na
adolescência, que o definiram como alguém que não se relacionava com ninguém, e
usava de desculpas, que estudava muito, para abater aquele sentimento.
Corria e corria, até
que de repente viu novamente a mulher e o menino, felizes, sorridentes, tendo
uma existência melhor que a sua, e isso lhe dava ódio. De repente, meteu a mão
no bolso, no instante em que parara sua corrida, ouvia vozes, sorrisos, frases
de ódio e zombaria, viu as luzes na rua se reduzirem, apesar de não ser mais de
9 da manhã. Aleksander tirou a mão do bolso, viu que tinha uma arma em sua mão,
sabia que estava carregada, sentia que estava, sentia o frio do metal, sentia o
cano da pistola em sua mão. Viu a criança sorrindo, feliz...viu em um instante,
um instante de suas loucuras, viu mais que uma criança, viu o símbolo de sua
infância sonhadora, que no fim se revelara em uma fase adulta de tristezas e
sofrimentos, com ódio então apontou a arma, ouvia gritos de
incentivos....Ouviu-se um estrondo, o grito da mãe, o uivo do cachorro. Viu o
olhar de ódio das pessoas...desesperado, apontou o cano da arma para seu queixo
e quando apertou o gatilho... acordou...suado, vendo em seus resquícios de
produto do inconsciente o sangue da criança escorrendo pela calçada, o boneco
abandonado ao chão e as músicas natalinas que desejavam felicidades.

